No Paraná do Cachoeiri, entre o Amazonas e o Trombetas, nasceram Honorato e sua irmã Maria, Maria Caninana.
A mãe sentiu-se grávida quando banhava no rio Claro. Os filhos eram gêmeos e vieram ao mundo na forma de duas serpentes escuras.
A tapuia batizou-os com os nomes cristãos de Honorato e Maria. E sacudiu-os nas águas do Paraná porque não podiam viver em terra.
Criaram-se livremente, revirando ao sol os dorsos negros, mergulhando nas marolas e bufando de alegria selvagem. O povo chamava-os: Cobra Norato e Maria Caninana.
Cobra Norato era forte e bom. Nunca fez mal a ninguém. Vez por outra vinha visitar a tapuia velha, no tejupar do Cachoeiri. Nadava para a margem esperando a noite.
Quando apareciam as estrelas e a aracuã deixava de cantar, Honorato saía d’água, arrastando o corpo enorme pela areia que rangia.
Vinha coleando, subindo, até a barranca. Sacudia-se todo, brilhando as escamas na luz das estrelas. E deixava o couro monstruoso da cobra, erguendo-se um rapaz bonito todo de branco. Ia cear e dormir no tejupar materno. O corpo da cobra ficava estirado junto do Paraná. Pela madrugada, antes do último cantar do galo, Honorato descia a barranca, metia-se dentro da cobra que estava imóvel. Sacudia-se. E a cobra, viva e feia, remergulhava nas águas do Paraná.
Volta a ser a Cobra Norato.
Salvou muita gente de morrer afogada. Direitou montarias e venceu peixes grandes e ferozes. Por causa dele a piraíba do rio Trombetas abandonou a região, depois de uma luta de três dias e três noites.
Maria Caninana era violenta e má. Alagava as embarcações, matava os náufragos, atacava os mariscadores que pescavam, feria os peixes pequenos. Nunca procurou a velha tapuia que morava no tejupar do Cachoeiri.
No porto da Cidade de Óbidos, no Pará, vive uma serpente encantadora, dormindo, escondida na terra, com a cabeça debaixo do altar da Senhora Sant’Ana, na igreja que é da mãe de Nossa Senhora.
A cauda está no fundo do rio. Se a serpente acordar, a Igreja cairá. Maria Caninana mordeu a serpente para ver a Igreja cair. A serpente não acordou, mas se mexeu. A terra rachou, desde o mercado até a Matriz de Óbidos.
Cobra Norato matou Maria Caninana porque ela era violenta e má. E ficou sozinho, nadando nos igarapés, nos rios, no silêncio dos paranás.
Quando havia putirão de farinha, dabucuri de frutas nas povoações plantadas à beira-rio, Cobra Norato desencantava, na hora em que os aracuãs deixam de cantar, e subia, todo de branco, para dançar e ver as moças, conversar com os rapazes, agradar os velhos.
Todo mundo ficava contente. Depois, ouviam o rumor da cobra mergulhando. Era madrugada e Cobra Norato ia cumprir seu destino.
Uma vez por ano Cobra Norato convidava um amigo para desencantá-lo. Amigo ou amiga. Podia ir na beira do Paraná, encontrar a cobra dormindo como morta, boca aberta, dentes finos, riscando de prata o escuro da noite: sacudir na boca aberta três pingos de leite de mulher e dar uma cutilada com ferro virgem na cabeça da cobra, estirada no areião.
Cobra fecharia a boca e a ferida daria três gotas de sangue. Honorato ficava só homem, para o resto da vida.
O corpo da cobra seria queimado. Não fazia mal. Bastava que alguém tivesse coragem.
Muita gente, com pena de Honorato, foi, com aço virgem e fresquinho leite de mulher, ver a cobra dormindo no barranco. Era tão grande e tão feia que, dormindo como morta, assombrava.
A velha tapuia do Cachoeiri, ela mesma, foi e teve medo. Cobra Norato continuou nadando e assobiando nas águas grandes, do Amazonas ao Trombetas, indo e vindo, como um desesperado sem remissão.
Num putirão famoso, Cobra Norato nadou pelo rio Tocantins, subindo para Cametá. Deixou o corpo na beira do rio e foi dançar, beber e conversar.
Fez amizade com um soldado e pediu que o desencantasse. O soldado foi, com o vidrinho de leite e um machado que não cortara pau, aço virgem. Viu a cobra estirada, dormindo como morta. Boca aberta. Sacudiu três pingos de leite entre os dentes. Desceu o machado, com vontade, no cocuruto da cabeça. O sangue marejou. A cobra sacudiu-se e parou.
Honorato deu um suspiro de descanso. Veio ajudar a queimar a cobra onde vivera tantos anos. As cinzas voaram. Honorato ficou homem. E morreu, anos e anos depois, na Cidade do Cametá, no Pará.
Não há nesse rio e terras do Pará quem ignore a vida da Cobra Norato. São aventuras e batalhas. Canoeiros, batendo a jacumã, apontam os cantos, indicando as paragens inesquecidas:
“Ali passava, todo dia, a Cobra Norato...”.
Lendas Brasileiras / Câmara Cascudo. - Rio de Janeiro: Ediouro, 2000
A Vitória-régia
Estava fazendo uma noite muito quente. O luar era tão claro, que se enxergava quase como se fosse de dia. Perto da lagoa havia uma importante tribo de índios, que hoje não existe mais. Entre os índios, havia um velho chefe, muito procurado pelas crianças, que gostavam de ouvir suas histórias.
Como a noite estava quente e o luar muito lindo, o velho cacique havia-se sentado bem perto da lagoa, para descansar e gozar daquela beleza. Logo que as crianças descobriram que ele estava ali, foram sentar-se perto dele. Pediram que lhes contasse uma história. O cacique, porém, estava tão distraído, admirando a vitória-régia, que nem percebera a chegada das crianças. Custou para que ele saísse daquela contemplação. Por fim, sorriu para elas.
- O que o senhor estava vendo com tanta atenção? - perguntou uma.
- Aquela estrela! Aquela bonita estrela, respondeu o cacique, apontando para a vitória-régia.
As crianças ficaram admiradas e trocaram um olhar significativo. A vitória-régia era uma estrela? Pobre cacique!
Ele percebeu o espanto das crianças e lhes disse:
- Não tenham medo! Não fiquei doido, não. Não acreditam que a vitória-régia seja uma estrela? Então ouçam:
Faz muitos e muitos anos. Nem sei quantos. Em nossa tribo, vivia uma índia, muito moça e muito bonita, a quem haviam contado que a lua era um guerreiro forte e poderoso. A moça apaixonou-se por esse guerreiro e não quis casar-se com nenhum dos índios da tribo. Não fazia outra coisa sendo esperar que a lua surgisse. Aí, então, punha os olhos no céu e não via mais nada. Só o poderoso guerreiro. Muitas vezes, ela saía correndo pela floresta, os braços erguidos, procurando agarrar a lua.
Todos da tribo tinham pena da índia, pena de vê-la dominada por um sonho tão louco.
E o tempo foi passando... Contudo, o sonho não deixava a pobre moça em paz. Queria ir para o céu. Queria transformar-se numa estrela, numa estrela tão bonita, que fosse admirada pela lua. Mas a lua continuava distante e indiferente, desprezando o desejo da moça.
Quando não havia luar, a jovem permanecia aborrecida em sua oca, sem falar com ninguém. Eram inúteis os esforços dos amigos e parentes para que ela ficasse com as outras moças. Continuava recolhida, silenciosa, até a lua aparecer novamente.
Uma noite em que o luar estava mais bonito do que nunca, transformando em prata a paisagem da floresta, a moça repetiu sua tentativa. Chegando à beira da lagoa, viu a lua refletida no meio das águas tranqüilas e acreditou que ela havia descido do céu para se banhar ali. Finalmente, ia conhecer o famoso e poderoso guerreiro.
Sem hesitar, a moça atirou-se às águas profundas e nadou em direção à imagem da lua. Quando percebeu que havia sido ilusão, tentou voltar, mas as forças lhe faltaram e morreu afogada.
A lua, que era, como eu disse, um guerreiro forte e poderoso, uma espécie de deus, viu o que havia acontecido e ficou compadecida. Sentiu remorso por não ter transformado a formosa índia em uma estrela do céu. Agora era tarde. A moça ia pertencer, para sempre, às águas profundas da lagoa. Porém, já que não era possível torná-la uma estrela do céu, como ela tanto desejara, podia transformá-la numa estrela das águas. Uma flor que seria a rainha das flores aquáticas.
E, assim, a formosa índia foi transformada na vitória-régia. À noite, essa maravilhosa flor se abre, permitindo que a lua a ilumine e revele sua impressionante beleza.
(Existem várias versões da lenda da vitória-régia)
Texto extraído do livro Histórias e Lendas do Brasil (adaptado do texto original de Gonçalves Ribeiro). - São Paulo: APEL Editora, sem/data
O Sol e a Lua
O sol era um belo rapaz, muito forte e inteligente. A lua era uma índiazinha bonita e delicada. Conheceram-se numa festa da tribo, uma grande festa iluminada por fogueiras e vaga-lumes. O Sol viu a Lua e ficou apaixonado por ela. A Lua viu o Sol e também ficou apaixonada por ele. E começaram a namorar.
Só que a Lua era muito orgulhosa e gostava de ser importante. Não era a qualquer festa que ela ia, não. Nem a qualquer passeio. O Sol era mais camarada e aceitava qualquer convite. Assim, enquanto a Lua ficava geralmente fechada na oca, o Sol andava por tudo quanto era lugar, divertindo-se a valer. Caçava, pescava, nadava.
A Lua não andava nada contente com este jeito de viver. Queria que ele fosse mais preocupado, que selecionasse melhor suas amizades. Era, porém, orgulhosa e nada dizia. O Sol notava que ela não estava satisfeita e não sabia o motivo.
Havia, também, outra coisa que aborrecia a Lua: ela era muito vaidosa e gostava de se enfeitar, de se pintar. O Sol não se cuidava muito
Tanto o Sol insistiu com a Lua para que lhe contasse o motivo de sua tristeza, que, um dia, a Lua, pondo de lado o orgulho, contou o que se passava:
- Você deveria ser mais vaidoso e mais exigente! Queria que se enfeitasse mais, que escolhesse suas amizades com mais cuidado e também os seus passeios!
- Por que? Gosto de ser simples, de conviver com todos, de ir a qualquer lugar!
- Mas não está certo! Assim, não ficarei contente. Quero que meu namorado seja mais importante do que os outros!
O Sol ficou muito triste. Como gostava da Lua, pôs-se a pensar no que ela havia dito.
Começou a evitar os amigos, indo pescar, caçar e nadar sozinho, com ares de importante.
Começou a ficar vaidoso, também. Enfeitava-se com as mais lindas penas. A Lua, por sua vez, vendo que o Sol estava ficando mais enfeitado do que ela, tratou logo de conseguir coisas mais valiosas.
E pedia ao pai:
- Papai, vou a uma festa e não quero usar os meus enfeites velhos! Quero que o senhor consiga para mim as penas mais bonitas que possam existir!
- O que está acontecendo? Você foi sempre vaidosa, é verdade. Mas agora! Não faz mais nada senão enfeitar-se! E eu, então, vivo procurando penas, dentes, nem sei o que mais!
Sempre que a Lua lhe pedia mais enfeites, ele queria saber o motivo de tanta vaidade. Tanto insistiu, que ela acabou contando.
Ele ficou louco da vida. Então, por causa do Sol, ele, que já não era muito moço, andava pela selva que nem um condenado, procurando enfeites para a filha! Bufou, xingou, praguejou e continuou a fazer a vontade da Lua. Não podia, porém, ver mais o Sol. Estava com uma raiva louca daquele rapaz que só sabia enfeitar-se.
Certo dia, o pai da Lua estava perto de um rio, caçando pássaros para conseguir penas, pois logo haveria uma grande festa. O Sol devia ir e andava procurando, da mesma forma, conseguir penas bonitas. Embora o pai da Lua estivesse com raiva do moço, os dois continuaram com a amizade.
- O senhor também está caçando? perguntou o Sol, assim que se avistaram.
- Sim, respondeu o índio, meio carrancudo. Vai haver uma grande festa e minha filha quer ir bem enfeitada.
- É verdade. Também vou. É por causa disso que estou aqui. Quero conseguir penas bonitas para fazer belos enfeites.
- Aproveitando a ocasião, você poderia também conseguir penas e outros enfeites para a Lua, não é mesmo? Afinal, não seria mais do que a sua obrigação. Já não sou tão novo para andar atrás dessas coisas.
- Realmente, mas a culpa não é minha. Ela não aceita nenhum presente meu! É muito orgulhosa e diz que a obrigação é do senhor!
Continuaram caçando por ali. É claro que o Sol, sendo mais moço, levava vantagem, acertando sempre as mais bonitas.
Aí surgiu no céu, voando devagar, majestosamente, uma ave muito bonita. Devia ter vindo de longe, pois eles a conheciam.
- Olhe! - gritou o Sol. Veja que ave maravilhosa!
- Não a conheço! - exclamou o outro.
- Vai ver que Tupã a enviou para que eu me enfeite com as suas penas.
- Se Tupã a enviou, foi para minha filha ser a mais linda da festa!
A ave desceu e pousou numa árvore muito alta. Agora, eles podiam ver melhor suas cores. Eram lindas. Todas as cores do arco-íris estavam ali representadas. Os dois ficaram de boca aberta, tão distraídos, que se esqueceram de caça-la. O Sol gritou:
- Preciso pegá-la! Tem de ser minha!
- Eu vou pegá-la! - desafiou o pai da Lua.
Cada um preparou depressa o arco e a flecha e apontaram para a pobre ave distraída e tranqüila. De repente, ela voou, ganhando altura.
- Lá vai ela! - gritou o Sol.
- Vai fugir! - exclamou o pai da Lua, desesperado.
Atiraram as flechas. O Sol, embora fosse melhor atirador do que o velho, por qualquer motivo, errou. Sua flecha passou longe. A flecha do outro acertou em cheio. Porém a ave, como já estava a grande altitude, foi cair do outro lado do rio.
Quando viu que havia errado, o Sol ficou louco da vida. Deu um chute numa pedra e urrou de dor.
O velho, ao contrário, ficou muito contente, pulando de alegria.
- Eu não disse que Tupã havia enviado a ave para a minha filha? - falou.
- Então não foi Tupã, sendo eu teria acertado!
- E você se julga melhor do que eu? - gritou o pai da Lua, mostrando que n&aatilde;o estava para brincadeira.
O Sol, que era esperto, percebeu que podia criar inimizade com o velho, o que, é lógico, não seria interessante. Assim, procurou acalmá-lo:
- Eu não quis dizer isso! Bem, vou buscar a ave para o senhor.
- Nada disso! Se minha filha não quer favores seus, eu também não quero. Eu mesmo vou buscá-la.
- Mas é preciso atravessar o rio e não temos nenhuma canoa aqui! Tem de ser a nado!
- O que você pretende dizer com isso? Então, não sei nadar?
O velho era teimoso e não quis saber de nada. Pulou na água e foi nadando. No meio do rio é que a coisa aconteceu. Não agüentou e começou a se afogar. O Sol saltou na água e nadou rapidamente na direção do pai da Lua.
O velho já estava nas últimas. O Sol chegou bem a tempo, colocou-o a salvo na margem e foi buscar a ave.
- Eis a sua ave! - disse o Sol.
- Minha, não! Sua! - exclamou o velho.
- Como assim? - admirou-se o Sol.
O velho olhou para ele, ficou uns instantes em silêncio e depois, destacando bem as sílabas, como se o outro fosse meio surdo, disse:
- A ave é sua e não minha. Sabe por que? Ficou mais um pouco em silêncio e explicou:
- Se você me salvou a vida e ainda foi buscar a ave, tem mais direito a ela do que eu!
- De jeito nenhum! Não posso aceitar! Fique com ela!
Os dois permaneceram naquilo um bom tempo. Aí, o velho teve uma idéia, mas não a revelou ao Sol.
- Está certo. Levarei a ave. Vamos! - disse.
Quando chegaram à aldeia, o velho propôs dividir as penas entre o Sol e a Lua. O Sol ficou horrorizado. Nunca! A Lua ficou brava como uma onça. O que? Usar as penas da mesma ave? Nem sonhando! O Sol que ficasse com a ave inteira! Ele não aceitou, nem a Lua, e a ave foi jogada num canto da oca. O Sol foi embora, zangado.
Ao saber que o namorado salvara seu pai, a Lua ficou ainda mais aborrecida. Não tinha dúvida de que o Sol ia ficar mais vaidoso do que nunca. Quando toda a aldeia soube do caso, prestou as maiores homenagens ao herói. Só se falava no Sol.
A Lua, para se acalmar, foi dar uma volta pela redondeza. Ao passar perto de um abismo, cuja profundidade ninguém sabia, ouviu uns gritos que vinham lá de dentro. Olhou cuidadosamente para ver o que era. Logo abaixo, agarrada a umas pedras, estava a mãe do Sol, já no fim de suas forças. Tinha-se distraído e caíra no abismo. O que fazer? Se fosse até à aldeia, não voltaria a tempo de salvar a velha índia. Rapidamente, a Lua apanhou um cipó, amarrou-o a uma árvore ali perto e, agarrando-se ao cipó, desceu até as pedras. Arriscando a vida, conseguiu amarrar a mulher pela cintura. Subiu e começou a puxar a mãe do Sol. Não teria agüentado aquele peso, mas, sentindo-se perto da salvação, a mulher agarrou-se com unhas e dentes nas saliências do abismo e ajudou a Lua a salvá-la.
Na aldeia, o Sol estava entre uma roda de rapazes, contando como salvara o pai da Lua. A mãe dele, então, chegou e contou o que havia acontecido.
Logo, a Lua começou a ser homenageada e, com todo o orgulho possível, ela disse ao Sol:
- Agora estamos iguais, não estamos?
Continuaram a namorar, porém a disputa era maior do que antes. Um não sabia o que fazer para se destacar mais do que o outro.
A Lua e sua família andavam tão preocupadas, que nem se lembraram da ave largada num canto da oca. Ficou ali uma porção de tempo, sem que ninguém percebesse.
A tal festa muito importante ia realizar-se na aldeia. Grandes preparativos estavam sendo feitos, muita bebida e muita comida. O pai da Lua estava às voltas com novos enfeites e o Sol também andava pela selva com a mesma intenção.
Mais tarde, a Lua recebeu os seus enfeites e preparou-se o melhor que pôde. Quando o Sol chegou, ela estava muito bonita. Ele, muito distinto e elegante, atraía olhares.
- Como os seus enfeites são lindos! - ele disse.
A Lua ficou toda orgulhosa, mas ele completou:
- Só que os meus são muito mais!
- Os seus? Ah, ah, ah! - caçoou a Lua, olhando para o Sol com cara de compaixão.
O pai dela, muito aflito, vendo a discussão que já se formava, andava de um lado para outro, sem saber o que fazer. E os dois vaidosos falavam, nenhum querendo perder. O velho, ansioso para acabar com aquilo, andava e olhava por todos os cantos. Acabou encontrando a ave, um pouco escondida por uns cestos:
- Olhem! Aquela ave que nós caçamos! Ainda está aqui!
A Lua olhou, horrorizada:
- Como é que pôde ficar esquecida?
O Sol aproveitou par fazer um comentário maldoso:
- Aquela ave? Não acredito! Então, Lua? Não é só a vaidade pessoal que tem valor, a oca também merece um pouco de cuidado! Há muito tempo que você não faz uma limpeza por aqui, hein?
- Calma, calma! - pedia o velho, arrependido da sua descoberta, segurando a ave pelos pés.
Eles estavam discutindo, quando a ave criou vida. O pai da Lua, vendo-a mexer-se, deu um grito que atraiu todos os índios da aldeia. Ouviu-se um estrondo e se formou uma fumaceira que não deixava ver nada. Quando voltaram a enxergar, no lugar da ave estava Tupã em pessoa. Não havia índio que não tremesse!
Imponente, impressionante, olhou para os dois jovens e disse:
- Vocês são muito vaidosos e orgulhosos. Não é possível o que estão fazendo. Só se preocupam em ser notados! Só desejam riquezas! As penas da ave que enviei eram mágicas! Se tivessem sido repartidas entre os dois, vocês teriam deixado de ser assim. Mas a vaidade venceu. Pois vão ser ricos e adorados por todos. Você, Sol, será transformado num rei adornado de ouro. E você, Lua, será transformada numa rainha coberta de prata.
Imediatamente, Tupã e os dois moços sumiram. E, a partir daquele momento, o Sol e a Lua começaram seu passeio pelo céu.
Texto extraído do livro Histórias e Lendas do Brasil (adaptado do texto original de Gonçalves Ribeiro). - São Paulo: APEL Editora, sem/data
O Guaraná
Há muitos anos, vivia na selva um casal de índios que era muito feliz. Os dois eram jovens, davam-se bem e toda a tribo gostava deles. Apenas uma coisa faltava, para que fossem completamente felizes: um filho.
Resolveram pedir esta graça a Tupã, que os premiou com um menino forte e sadio.
Toda a tribo ficou contente: agora, nada mais lhes faltava!
O tempo foi passando e a criança ficava cada vez mais forte e bonita. Era um menino muito vivo e tinha sempre alguma coisa com o que empregar o tempo. Se não estava ajudando sua mãe a fazer algum serviço, ia com o pai à caça ou à pesca, embora não gostasse de matar nenhum bicho. Quando não tinha mesmo nada que fazer, visitava os outros índios, com os quais sempre aprendia alguma coisa, pois era muito inteligente e curioso.
Por ter um coração cheio de bondade, era admirado por todos. Seus pais eram o casal mais feliz daquela tribo. Ninguém possuía um filho assim.
Pouco a pouco, o menino foi conhecendo a vida e os segredos da floresta, aonde ia sempre acompanhado.
Havia uma coisa que o deixava muito intrigado. Era Jurupari, o espírito do mal. Tinha ouvido alguns dos mais velhos falarem rapidamente sobre este demônio. Todas as vezes, porém, que o menino pedia que lhe contassem quem era e o que fazia Jurupari, eles nada diziam. Achavam que ele era muito novo para estas revelações. E, assim, este ficou sendo o único segredo que o menino desconhecia.
Tanto correu a boa fama do menino, que chegou aos ouvidos de Jurupari. E, a partir daquele momento, ele começou a observar cuidadosamente a criança. Como Jurupari podia ficar invisível, ninguém percebia que ele andava por perto.
Quanto mais o malvado observava o menino, mais raivoso ficava. Morria de inveja. Não podia suportar que alguém fosse tão inteligente e bondoso. Foi embora para a selva, tremendo de ódio e pensando: "Preciso vingar-me daquele menino. Não pode existir uma pessoa tão perfeita! É desaforo!"
O tempo foi passando e Jurupari não encontrava um modo de prejudicar o menino.
Uma vez, na mata, quando estava observando a criança, notou que ela era procurada pelas aves e pelos animais e ficava no meio deles, conversando com um, acariciando a cabeça de outro...
Jurupari ficou tão furioso, que assustou a todos: as aves saíram voando, os animais corriam como loucos e o pequeno, sem compreender o que havia acontecido, foi embora muito triste, pensando que os bichos não gostavam mais dele.
Como o menino gostava muito de frutas, procurava sempre ficar perto das árvores, escolhendo e comendo os frutos maduros.
Ao descobrir este seu costume, Jurupari teve uma idéia:
- Vou transformar-me em cobra! Quando menos esperar, será picado e não terá salvação! Jurupari ficou esperando nova oportunidade. Poucos dias depois, a criança apareceu outra vez. Os frutos estavam luminosos e o menino correu para a árvore. O demônio transformou-se numa cobra e foi para perto do menino. Ele notou a presença da serpente, mas como não tinha medo de cobras, pois conhecia todos os seus costumes, continuou a comer calmamente. Ignorava que Jurupari podia transformar-se no que desejava. Ah! se os mais velhos lhe houvessem contado...
Jurupari tomou a cor da árvore e enrolou-se nela. O menino estava descendo, distraído, quando foi atacado pela serpente.
Quando o encontraram, caído, os olhos virados, as frutas jogadas no chão, foi uma tristeza sem tamanho. Todos choravam, inconformados. Seus pais gritavam tão alto que estremeciam as nuvens...
- Foi picada de cobra, vejam! - mostrou um índio.
- Não é possível! - exclamou o pai. Ele sabia lidar com as serpentes.
Um dos índios mais velhos, que até ali não dissera uma palavra, falou:
- Foi Jurupari. Era o único segredo da selva que o menino não conhecia.
E ninguém parava de chorar.
De repente, o ruído de um trovão cobriu todos os outros sons. Os índios ficaram assustados, pois o céu não apresentava nenhuma nuvem.
Somente a mãe do menino compreendeu a mensagem:
- a voz de Tupã. Ele quer dar-nos uma compensação. Deseja que plantemos os olhos do meu filho. Diz que deles brotará uma planta milagrosa, cujos frutos nos farão felizes!
Os índios atenderam e enterraram os olhos do menino. E deles nasceu o guaraná. Guará, na língua dos índios, significa "o que tem vida, gente," e ná, "igual, semelhante". Assim, traduzido, guaraná quer dizer: BAGOS IGUAIS A OLHOS DE GENTE.
Guaraná (Paulinia cupana) – do tupi wara’ná. Arbusto trepador que tem propriedades excitantes, pelo conteúdo de cafeína e teobromina.
As sementes maduras do guaraná, depois de torradas e moídas, formam uma massa plásticas macia e homogênea de cor cinzenta, que, depois da defumação para secagem, muda para vermelho-escura, às vezes quase roxa, escurecendo com o tempo, devido à oxidação. É na fase de massa moldável que se preparam os “pães”, de formas cilíndricas, elípticas ou ovais, que, depois de adquirirem consistência extremamente dura e inalterável, são oferecidos no comercio. O “pão” de guaraná é constituído por massa duríssima e, para ser consumido, precisa ser desbastado com lima de aço ou, como o fazem as populações rurais da Amazônia, limado com o osso hióide (erradamente chamado de língua) do Pirarucu.
Como refrigerante, o nome guaraná é reservado à bebida não alcoólica, gasosa, que contenha no mínimo 1% de extrato de guaraná (produto resultante do esmagamento da semente de guaraná torrada), mais açúcar, acidulantes (como o ácido cítrico) e substâncias aromáticas. Muito difundido no Brasil, o guaraná é também exportado; tem ação refrigerante e tônica, sendo rico em cafeína.
No folclore, Guaraná de figuras, são enfeites fabricados com sementes de guaraná descartadas como inaproveitáveis para a alimentação, com as quais se faz a massa plástica e que se defuma para endurecer.
Verdadeiros artistas modelam objetos (bandejas, cálices, canetas), frutas (biribás, ananás, mungubas) e animais (antas, quatis, jacarés, macacos, tatus), que são comercializados como curiosidades ou lembranças de viagem pela Amazônia.
Os índios Maués preparam uma massa comestível com as sementes desse arbusto.
1. Texto extraído do livro Histórias e Lendas do Brasil (adaptado do texto original de Gonçalves Ribeiro). - São Paulo: APEL Editora, sem/data
2. Grande Enciclopédia Larousse Cultural - São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda, 1988.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
ALGUMAS LENDAS INDíGENAS EXPLORADAS NO DECORRER DO PROJETO
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